Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, é uma obrigação de todos os cidadãos publicado no The Guardian, em 15/10/2013. É uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização.

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Ingaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócioeconômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia.

“Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”.

Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

Fonte original: Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

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As bibliotecas humanas onde se consultam pessoas em vez de livros

biblioteca humana

Biblioteca humana: pessoas reais, conversas reais.

É certo que nos últimos anos as bibliotecas vem apresentando mudanças significantes e isso não  se evidencia apenas com a tendência no desaparecimento dos catálogos em fichas impressas. O entendimento de biblioteca como um lugar cheio de livros onde pode acessar a informação está obsoleto e insisto em afirmar, o conceito de biblioteca que encontramos nos dicionários já não mais se aplicam por não ser suficiente.

Em postagens anteriores já falei da diversidade de coleções e coisas que podem ser encontradas no espaço de bibliotecas, como o  empréstimo de ferramentas de trabalho e de utensílios de cozinha.

O surgimento da ideia

biblioteca humana é uma experiência que iniciou com a ONG por jovens idealistas, denominada de “Stop the Violence” na  cidade dinamarquesa de Copenhaguem no ano 2000, dentro do Festival Roskilde ‒um dos  maiores festivais de verão na Europa. E desde esse primeiro momento a ideia já tinha o foco na anti-violência, encorajar o diálogo e ajudar a construir relações positivas  de tolerância e compreensão entre os visitantes do festival.

Naquele momento havia na Dinamarca uma grande concentração de pessoas de diferentes culturas, religiões, raças e então a população daquela região tinha um sentimento de invasão.

Em oposição a esta crença, deu-se forma à biblioteca humana, uma plataforma para promover o diálogo entre as pessoas que normalmente nunca falam, possibilitando, de certo modo o questionamento aos preconceitos e estereótipos, e contribuindo para o reforço da coesão social.

Atualmente a biblioteca funciona como projetos e permite que algumas ONGs ou pessoas utilizem a marca para realização de eventos com o nome Library Human em diferentes partes do mundo.

A coleção da biblioteca

Os  materiais consultivos porque não há como comparar aos livros numa Biblioteca Humana são pessoas reais, voluntárias, capazes de comunicar a sua realidade pessoal. A modo ilustrativo, é possível estabelecer contato com pessoas que foram vítimas de discriminação ou exclusão social e que estão disponíveis para se encontrar, num ambiente aberto, acolhedor e seguro, com um ou mais “leitores” interessados.

livros da biblioeca humana

No catálogo da própria biblioteca é possível identificar algumas “Pessoas informantes” denominados “Livros” pela instituição. Entre eles temos:

  • Transtorno bipolar
  • Vivendo com HIV
  • Refugiados
  • Mães solteiras
  • Abuso sexual
  • Naturistas
  • Relações poliamor
  • Surdos
  • Cegos
  • Desemprego
  • Lesão cerebral
  • Transtorno de estresse pós-traumático em soldados
  • Déficit de atenção / hiperatividade (TDAH/DDA)
  • Modificação extrema no corpo
  • Sem teto
  • Conversão religiosa

Metodologia da consulta

  • É um método planejado para promover o diálogo, reduzir preconceitos e estimular a compreensão.
  • Os encontros são uma oportunidade para a aprendizagem, tendo um papel importante na sensibilização sobre a importância dos direitos humanos para o bem-estar pessoal de todos.
  • Após escolher um tópico sobre o qual querem escutar, os “leitores” pegam no seu cartão de biblioteca e são conduzidos a uma área de discussão, onde conhecem os seus “livros”.
  • É riqueza está na possibilidade de questionar, tirar dúvidas: tornando a experiência engrandecedor para ambas as partes.

 

Biblioteca virtual chega ao metrô em Buenos Aires

A primeira rede de biblioteca virtual foi instalada na estação de metrô Plaza Italia (Linha D/Verde). Lá você pode baixar mais de 200 livros para desfrutar durante as suas viagens, de forma gratuita.

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A partir de alguns passos simples, você pode aproveitar seu tempo lendo livros. Apenas com um dispositivo móvel que permita escanear um código QR para acessar o catálogo completo da Biblioteca Integrar do Ministério da Educação e usando a rede de conexão a internet da cidade (BA Wi-Fi) disponível em toda a Linha D, você poderá baixar o livro que quiser.

A Biblioteca faz parte do Portal Educativo da Cidade de Buenos Aires, onde seguem agregando mais livros, filmes, vídeos e música.

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Alguns dos livros que você consegue de encontrar na biblioteca virtual são: Contos de amor, loucura e morte, A vida é um sonho, Édipo Rei, O Príncipe e o Mendigo, O Amigo fiel, Alice no País maravilhas, A Arte da Guerra. Estão em formato EPUB e PDF.

Em breve serão instaladas novas bibliotecas virtuais  na estação Juan Manuel de Rosas( Linha B/Vermelha) linha e na passagem Newton da estação 9 de julho (Linha D/Verde).

Passo a passo:

  1. Baixe leitor de QR Code em seu telefone.
  2. Abra o aplicativo que você baixou.
  3. Aponte o QR Code  para o livro que você quer ler.
  4. Baixe-o e leia sempre que quiser.

Se você mora ou estiver de passeio em Buenos Aires, fica a dica.

Livros: morte ou transmigração para a virtualidade?

Eu, livro – uma nota escrita por Juan Carlos Kreimer, publicada no Jornal Argentino “Página 12” em 20 de Julho de 2014 nos faz pensar sobre os paradigmas emergentes no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação no que diz respeito as dimensões físicas, materiais, cognitivas e sociais as quais temos enfrentado na sociedade da informação e do conhecimento. Propício para discussão a partir de nosso ponto de vista como cidadãos, bibliotecários, bibliófilos ou profissionais da informação.

Percebemos a narração de uma passagem traumática e dramática do material tangível ao intangível onde se instalam processos de nostalgia de  uma era pós-moderna marcadas por  “impossibilidades certas de capturar os instantes”. O narrador questiona sobre as eventualidades da apropriação do corpo já imaterial  propriedade imaterial do livro e que tipo de práticas leitoras serão estabelecidos em torno dele. Finalmente, o livro como sujeito,  observa que as novas propriedades da transmigração e indica a sua sobrevivência com base na continuidade da narrativa em função do espírito humano. O que importa é a durabilidade da alma do livro.

Na verdade, o motivo desse post é para refletir o quanto precisamos cultivar e conscientizarmos sobre a constante e móvel migração dos suportes que se convertem a cada dia mais efêmero.

Abaixo transcrevo a nota publicada de forma literal ao português. Trata-se de uma tradução não autorizada.

Eu, livro.

Mortalmente ferido, espécie ameaçada de extinção, objeto com tendência ao desaparecimento. De coleção, na melhor das hipóteses. Dizem sobre mim. O que restará desta massa muscular de papel e veias negras. Eu não sobreviverei ao pouso digital e em breve, talvez antes que eu mesmo possa dizer adeus, eu deixarei de vir como vinha. Em forma de exemplar.

Sem minhas páginas, quilômetros texto já se deslizam sobre outras superfícies. A variedade de suportes transcedem os computadores, tablets, agendas eletrônicas, ipads, smartphones … Basta convocar, ter um cartão de crédito habilitado ou ser hábil com os dedos, e de qualquer lugar no mundo onde você está, imediatamente você pode me baixar e estarei diante de seus olhos, como uma outra aplicação do dispositivo que tenhas à mão.

Minhas tiragens são reduzidas e os leitores que me ignoram como objeto físico se multiplicam. Prontos com um número esmagador de títulos brotam através dessa caixinha mais plana que eu, apenas umas gramas mais pesadas.O e-reader (eu pronuncio e em meu  novo nome universalizado já ouço de quem é a voz mestre nesta mutação).

Imaterial, intangível, volátil, sem a arte da capa para que ao menos possam me identificar. Zero espaços de biblioteca, zero caixas nas mudanças. Mero arquivo, mera quantidade de bytes. Você termina um e num instante pode seguir com outro. Embora imprimam milhões de mim em todas os idiomas, a tendência é que isso se multiplique. Hoje, depois de amanhã eu não sei.

A nostalgia precoce sentida por aqueles que se criaram comigo e me acariciaram por anos, me levaram para passear embaixo de suas axilas, me roubaram, me empilharam em cima de suas mesas de cabeceira (eu antecipava seu sono), me levavam de férias, me conservaram como bem próprio.Pessoas que me emprestaram e pessoas que me devolveram. Aos que preenchi um vazio entre uma atividade e outra. Aqueles que não podem viver sem mim e até mesmo o meu cheiro lhes diz algo.

E se resistirem à ideia de que um dia não muito longe deixarão de me encontrar nas prateleiras e deverão apenas mover o cursor para o carrinho a direita da tela. Se o aparato que me abriga dá um arrepio neles que prefeririam não sentir, e nem comento o que está acontecendo a todos aqueles que compõem a cadeia de produção / circulação montada em torno de mim. A industria editorial. Sem saber para onde, correm  aterrorizados. Rogam para que esse dia se atrase o máximo possível. O tornado numérico, assim o chamam na comunidade europeia, onde o negócio editorial é parte significativa das economias dos seus países e não podem evitar que as curvas das vendas se inclinem frente a disrupção causada pela minha nova embalagem.

Disrupção e inovações disruptivas. Familiarize-se com esses significantes. Eles são usados como sinônimos de colocarem-se em nichos de mercado e dominá-los sem deixar espaço para a menor capacidade de reação. Mais atrasam as vítimas de admitir a sua presença, maior a carga. Como aconteceu com a música gravada, fotografia, filmes, passagem aérea, anúncios dos classificados (seguem os itens), a disrupção eletrônica está vindo me buscar.

Qual o papel que irei desempenhar na sociedade global? O que venderão os editores? Recomendações? Quem fará a encadernação dos impressos? Qual será o impacto dessas pessoas que decidem os títulos publicados e que, como previsto por Borges, nunca verão a alta honra de tipografia? De onde sairá as margens de lucro para pagar os salários? Diversos autores poderão publicar seu trabalho, sem intermediários nas listas de títulos disponíveis: agora o risco de investimento é mínimo para o distribuidor, só passar a Word ou um pdf a um adobe acrobat e-reader ou a um epub. Quase nem precisa de um projeto de design para  fazer o upload numa plataforma que possa vendê-lo. O selo editorial deixará de ser o sobrenome que garante algum tipo de critério na seleção. Em que base será criado meu preço de capa?

Desde o banheiro agora você pode me assinar: me folheia e me escolha, leia tudo o que quiser por apenas 89,90 por mês …

A página é idêntico ao papel, você pode dimensionar o tamanho de minhas letras a seus dioptrias, você não precisa molhar o dedo para virar a página, a rugosidade do material da tela simula a celulose. Enquanto me lês podes saber o que os críticos escreveram sobre mim e outros que já me leram, fazer marquinhas sem um lápis. Eu não faço doer os braços quando me seguras no ar,  permito que me leias sem que acenda a sua luz de cabeceira e acordar seu marido … Isso de que produzo câncer, é papo causado por medo dos tradicionalistas.

O que está por trás dessas mudanças ortopédicas no negócio de publicação, na nossa relação eu-tu? Um hábito de não apenas ler, mas para viver: sem nós também, você está substituindo tem (e eventualmente acumulados) pelo acesso (neste caso leitura, que é a nossa relação sexual). Se desapegando do veículo e fazendo a mesma viagem, mais leve. O que conta agora é o uso, não o material de que é feito.

Sim, a sensação que coias como eu dão posses  (defesa conservadora) tende a deslocar-se à capacidade chegar a informação que você quiser, quando quiser. Quanto mais jovem for reclaro, nem eu levantar. Eles nasceram com esse paradigma e viver mais tempo construída através de que, em. Eles são programados para não resistir a qualquer transformação. Mais que isso, as esperam como parte de sua estabilidade emocional, de seu não  aborrecimento. Talvez mais do que ler, só procurem saber.

Incondicionais, não chorem por mim, nem por vocês. Chamamos migração ao terremoto. Assim como haverá sempre uma corporação disposta a ficar com os beneficiados de intermediário, , sempre haverá muitos – de fato cada vez mais, eles que queiram se tornar personagens de suas epifanias, especialmente nesse vírus que é o escritor. Sempre haverá impulsos que conduzem a narrar. Sempre sofrimentos, fragilidade, necessidades, enganos, incompletudes … e sempre filas de preto sobre branco hospedarão a singularidade aparente. Sempre haverá editores bonsai.

Eu sobreviverei a gamificação (joguinhos incorporados) da leitura, aos mega buscadores, a qualquer formato que você me apliquem. Eu  os seguirei companhando  acompanhar durante essas horas em que não podem se desapegar de minhas histórias, o que irá ou deixará de fazer tal personagem. Ou onde vai o entrelaçamento de determinada ideia. Nos momentos em que precisam ir para uma outra realidade, que não podem dormir, ou me engolem como uma medicamento. Continuarei pondo frente seus olhos todas essas histórias que sem a intenção falam de você. Vou fazer uma ponte entre o imaginário daquela mente solitária que um dia se deixou cair sobre as teclas e esse seu espaço, caçador solitário, dialogando, recria e as torna próprias.

Eu não importo.

Fonte original disponível em: http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-9884-2014-07-20.html

“Semana de la dulzura”: um bombom por um beijo.

semana de la dulzura

Uma das datas comemorativas que mais gosto aqui na Argentina é a famosa e tão esperada semana da doçura. Começa no dia 01 de julho e decorre até o dia 7 do mês. A intenção é dar doces e guloseimas em troca de um beijo. Pense como é possível tirar uma casquinha nada inocente. (risos).

A Semana da doçura é uma invenção puramente argentina, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo e não foi adotado por qualquer país ou continente.

#Como começou

Nasceu em 1989 por iniciativa da empresa Arcor com ADGyA (Associação de Distribuidores de Guloseimas e Afins – em português) como parte de uma estratégia de marketing para aumentar as vendas.

O sucesso foi tão grande e acompanhado do slogan da campanha “una gulosina por un beso” estima-se que durante esta semana do ano  aumentou aproximadamente 20% a venda de doces. Pouco a pouco a semana foi se tornando um clássico momento onde todos podem aproveitar para presentear um doce a uma pessoa especial. A partir desse momento a semana de doçura foi implementada como parte da cultura argentina, tornou-se tão importante como o dia do amigo, mãe, filho ou pai.

Nesta semana, a ideia é ser amável e gentil com seus bens, seu trabalho e tudo ao seu redor.

#O lado amargo

Assim como o chocolate, também temos pessoas amargas e que criticam a semana festiva porque “a semana de doçura é uma invenção dos países do terceiro mundo para aumentar a ascensão do capitalismo”. [Não me venham com ideais de socialismo mal aplicado por favor!].

Também tem o grupo dos que acham estúpido esperar por sua esposa(o), namorada(o), peguete com um buquê de rosas no aniversário, comprar presentes no Natal ou ovos de chocolate na Páscoa, e, inclusive celebrar a Semana da doçura. Estas mesmo que tenham uma característica religiosa, notem que também possuem um vínculo religioso – e também capitalistas.

# Curiosidade (que eu me amarro)

pegadinha bombom

O ser humano é super criativo. Uma brincadeira que costuma fazer por aqui é o seguinte: Se 1 bombom vale 1 beijo. Uma caixa de chocolate um bom sexo (garchada – termo informal, não sei se vulgar para sexo), não?!

As baladas sabem muito bem como tirar proveito da ocasião, muitas delas já entregam doces no momento que a pessoa chega na balada e aí se instala um momento de azaração a noite toda. Sensacional!

Além das especulações e pensamentos divergentes, a semana de doçura existe e está instalada na Argentina com grande êxito! Não é a toa que no ano de 2015 está em sua 26a edição, é provável que, em pouco tempo veremos brasileiros, italianos, venezuelanos, espanhóis e outras nacionalidades dando doces e pedindo um beijo em troca.

Vender mais livros não significa criar leitores

Guillermo Schavelzon nos ajuda a compreender porque “Vender livros não significa criar leitores”.

Pontos importantes:

  • Uma das diferenças com outros produtos culturais: é pouco provável que o número de entradas vendidas num cinema não coincida com a quantidade de espectadores. Por outro lado  o livro é portátil, se leva a casa, se lê no ônibus , mas a leitura é quase sempre um ato privado e não coletivo.
  • É possível conhecer a quantidade de livros vendidos, não de livros lidos (seja total ou parcialmente).
  • Não se incorporam nas pesquisas, que livros podem ser comprados por hábito, ou seja, para ler; ou ainda para presentear. Pode ser ainda que comprem para decorar. Isso mesmo, embora não seja comum tal prática no Brasil. Na Argentina e na Europa é bem comum.
  • Acrescenta ainda que não somente os Estados devem fomentar a leitura; deveriam fazer sobretudo os professores, os bibliotecários, os contadores de histórias, os escritores, os ilustradores, os editores, os livreiros e, portanto há necessidade de que as famílias assumam suas responsabilidades com coerência.

El blog de Guillermo Schavelzon

(C) BiblioAsturias (C) BiblioAsturias

Una cosa es comprar libros, y otra leerlos. Conocemos cuántos libros se venden de cada autor y de cada título, en algunos países lo sabemos online y en tiempo real, pero no sabremos nunca cuántos de esos libros son leídos. La industria editorial puede intentar vender más, pero poco puede hacer para que se lea más.

Esta es una de las diferencias del libro con otros productos culturales: es poco probable que el número de entradas vendidas en un cine, no coincida con la cantidad de espectadores. En cambio el libro es portátil, se lleva a casa, se lee en el tren, pero la lectura es casi siempre  un acto privado más que colectivo o presencial.

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Campanha de incentivo a leitura #50mais1

50mais1, Campanha de incentivo a leitura da FazINOVA Brasil

Assista ao vídeo da campanha e espalhe a leitura pelo Brasil. 

A FazINOVA acredita no poder dos livros de mudar vidas. E por isso resolvemos juntar todas as nossas forças, através dos inúmeros Embaixadores que temos pelo Brasil, para disseminar o hábito da leitura com a campanha “50mais1”.

Mais uma vez surpreendido e encantado com o trabalho de Bel Pesce, sim, ela mesma, a escritora do famoso livro A menina do vale. Uma jovem empreendedora brasileira que está sempre buscando estimular outros jovens a “fazer acontecer”, empreender e desenvolver habilidades e competências de modo responsável. É importante ressaltar o compromisso com o social porque a missão da empresa é muito clara e acredita que nosso país é o resultado da soma das ações de todos nós.

No Brasil, metade da população tem o hábito de ler. Cinquenta mais um desafia você, leitor, a compartilhar esse hábito emprestando um livro que você gosta para um amigo, e assim, trazendo cada vez mais pessoas para esse universo da leitura.

#Para participar é simples:

  • Tire uma foto com o livro que será compartilhado.
  • Diga qual amigo vai receber o livro.
  • Poste nas redes sociais com a #50mais1 indicando mais 3 amigos para continuar a corrente.

Para facilitar a postagem, a FazINOVA montou esse texto que pode ser copiado e compartilhado:

Fui desafiado a compartilhar um livro e incentivar a leitura no Brasil com a campanha #50mais1.
Um livro que me ensinou muita coisa foi “nome do livro” e eu vou emprestá-lo para a “nome do amigo” E desafiar meus amigos “amigo1”, “amigo2” e “amigo3” a também compartilhar um livro e desafiar outras pessoas.

O beijo argentino

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Gottlieb, William P., 1917-, photographer. [Portrait of Johnny Bothwell and Claire Hogan, New York, N.Y.(?), ca. Oct. 1946]

Nós brasileiros somos conhecidos como: “o país mais grande do mundo”, do samba e do carnaval. Alguns dizem que somos assanhadinhos ou ”calientes”. Enfim, fiquei surpreso quando cheguei aqui no ano passado e percebi que era comum cumprimentar-se com um beijo, isso mesmo, um beijo. Na Argentina tanto homens quanto mulheres trocam beijos no rosto em encontros profissionais e situações mais informais. Me parece uma situação calorosa dos portenhos, e essa inclinação a se tornar amigo num primeiro contato, acaba por seduzir ou intimidar muitos estrangeiros. 

O fato é interessante e muitos de imediato dispensam tal formalidade. Sim, algumas pessoas chegam a mostrar-se incômodas com o sistema oficial de beijos, já notei gente olhando com receio, outros com uma postura mais reservada ou mesmo com um certo “nojo” (o que me parece coisa de gente idiota, mas cada um no seu quadrado).

Há quem goste da atitude como também há movimento que tentam acabar com essa coisa do beijo principalmente entre o gênero masculino. Uma professora comentou que não teve muito sucesso tal campanha e afirmou também que em algumas províncias não é muito comum esse tipo se cumprimento que embora antigo, segue vigente entre homens, mulheres e crianças.

Não vejo nada contra. Acostumei até, lembro da primeira semana de aula que eu não sabia o que fazer quando chegava nas aulas. Os que já me conheciam vinham  dar o beijo, eu ficava vermelho. Depois comentei que no Brasil, isso é coisa comum entre mulheres (normalmente amigas)  ou entre uma mulher e um homem.

Mãe e filho Fonte: Google Imagens, com direitos Creative Commons Deed CC0

Na época até comentei com alguns companheiros de apartamento no meu primeiro mês aqui: “-Nossa, há muito beijo em Buenos Aires. Gosto disso mas não entendi ainda: quem eu devo beijar? devo beijar todo mundo? quando chego ou quando me despido?”. A resposta foi: Beije a todos, quando chegue e quando se despida.

Não importa, certamente o beijo no rosto é um contato agradável com amigos, familiares, e pessoas que gostamos (e as vezes não). Só me sinto desconfortável (não incomodado) quando se trata de um total desconhecido, então prefiro ser um pouco “mala onda” pois penso que já é uma invasão do meu território particular. Claro! A pessoa ao beijar, encosta a pele, sente o cheiro da roupa, do perfume, encosta o lábio, a barba, o batom, etc.

Como sei que tem homem lendo isso aqui, vou logo deixar as coisas claras: no ato não fica parecendo com uma “bichisse” ou manifestação homoafetiva. Os beijos entre homens ocorrem de uma maneira bem masculina e argentina, assim que, quando dois amigos se encontram, por exemplo, dá-se um beijo no rosto seguido de um tapinha no ombro e pergunta algo “-E aí cara, como vai?” ou ” Oi, beleza?”.

Dois amigos na praça Fonte: Google Imagens, com direitos Creative Commons Deed CC0

Agora quando é aquela pessoa linda, que você morre de vontade de tirar aquela casquinha… hahaha que forma mais gostosa de saudar alguém. kkkkk É assim, nesse ponto de vista, sei que muitos concordam que até gostariam de dar um beijo apressado e que escapasse de encontro aos lábios. WOOOU! Ou ainda assim vais dizer que preferes dar as mãos?Dar as mãos, por outro lado,me parece educado igual, embora deixe bem marcado a distância entre duas pessoas (igual o Funk do Cada um no seu quadrado). E tem gente que nem aperta, outras mãos úmidas, geladas.

Na dúvida, quando vierem por aqui ou conhecerem algum@ argentin@, já estão informad@s. Fiquem atentos aos sinais, note o olhar. Se você se sentir confortável, beije; caso contrário se apresse e estenda a mão.

Obs: É um beijo apenas. 

10 idiomas mais presentes na internet e a sociedade da informação

Recentemente em discussão sobre a produção de conteúdos em língua portuguesa, comentamos que esta língua já figura como a quinta mais presente na Web. Mesmo que que a língua inglesa tenha um uso mais comum na produção de conteúdos publicitários ou acadêmicos disponibilizados o português vem ganhando espaço, sobretudo, devido ao crescimento da utilização da Internet em países como o Brasil, Angola e Moçambique.

Pensando nisso, fui em busca de mais informações. De acordo com pesquisa subsidiada pelo Internet World Stats no ano de 2014, podemos observar as últimas estimativas para usuários de Internet por língua:

idiomas na internet 2014

 

Brasil domina o mercado de Internet da América Latina em termos de número de usuários.

Em nível global o Brasil se posiciona em quarto lugar, ficando atrás de China, Estados Unidos e Índia, respectivamente.

Em termos de penetração, que ocupa aproximadamente o terceiro lugar, atrás de Uruguai e Chile e ligeiramente à frente da Argentina.

Brasil é o país onde mais de um terço de todos os usuários de celulares na América Latina e no Caribe.

número de usuários na internet américa do sul

Com as possibilidades diversas da forma de pagamento, a classe média do país está se tornando um consumidor cada vez mais desejoso de computadores e  smartphones.

Segundo informações divulgadas na Pesquisa de Mídia Brasileira 2015, divulgadas em 19/12/2014 pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, os brasileiros já passam mais tempo navegando na internet do que na frente da TV.

gasto de tempo na internet

Brasileiros gastam em tempo médio conectados à internet :

  • 4  horas e 59 minutos por dia usando a internet durante a semana.
  • 4 horas e 24 minutos/dia nos fins de semana.
  • 76% acessam a rede todos os dias.
  • O pico de uso é às 20h, tanto nos dias úteis quanto nos fins de semana.
  • Jovens com até 25 anos, 63% acessam a internet todos os dias.
  • Adultos com 65 anos ou mais, o percentual de acesso cai para 4%.
  • 8% estudaram até a 4ª série acessam a internet pelo menos uma vez por semana.
  • Aumenta para 87% o acesso a internet entre os que têm ensino superior.
  • Entre os internautas, 92% estão conectados por meio de redes sociais, sendo as mais utilizadas o Facebook (83%), o Whatsapp (58%) e o Youtube (17%), Instagram (12%) e Google+ (8%). O Twitter, foi mencionado por apenas 5% dos entrevistados.

Esse post realmente me chama atenção como profissional da informação e é entender os fatos existentes atrás dos números. É preciso analisar sobre o que as pessoas acessam na rede, se sabem buscar informações e mais que isso: sabem como tirar proveito do que existe de bom na rede, separar informações relevantes das não relevantes.

Embora a pesquisa e a observação empírica permita afirmar que  67% acessam a rede em busca de informações ou notícias, mesmo percentual dos que dizem entrar na internet para buscar entretenimento (pergunta de múltiplas respostas).

Democratizar o acesso não significa o mesmo que incluir a todos, logo, não podemos seguir estimulando um discurso que não é retrata a realidade de que todos ou grande parte possuem acesso e sim perceber se sabem utilizar as ferramentas disponíveis e se o governo contribuiu fomentando projetos de promoção a cidadania e coesão social.

Existe um mundo de possibilidades com a web e pode ser explorada de forma pedagógica para dar suporte a educação, formal continuada ou a distância. Mesmo porque não podemos pensar apenas nos nativos digitais pois há que considerar a existência de pessoas que precisam ser alfabetizadas, capacitadas para então conseguirem ser inseridas na tal sociedade da informação*.


*Sociedade da Informação é a nomenclatura dada para os programas nacionais voltados às Tecnologias da Informação e Comunicação como forma de garantir sua utilização e distribuição para toda a população, para assegurar que as TIC não sejam mais um fator de exclusão social. O termo nasce em Portugal em meados da década de 1990 e vai ganhando força em todo o mundo. No Brasil, o projeto é finalizado entre 1999 e 2000. Em alguns países, o mesmo programa pode ser encontrado como “Sociedade do Conhecimento”.

Materiais relacionados:

 


Fontes consultadas:

http://www.budde.com.au/Research/Brazil-Mobile-Operators-Insights-and-Analysis.html
http://www.budde.com.au/Research/Brazil-Mobile-Market-Insights-Statistics-and-Forecasts.html
http://www.internetworldstats.com/sa/br.htm
http://www.internetworldstats.com/stats15.htm
http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2014-12/brasileiro-passa-mais-tempo-na-internet-que-vendo-tv
SANTOS, Plácida L.V.A; CARVALHO, Angela M. G. Sociedade da Informação: avanços e retrocessos no acesso e no uso da informação Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v.19, n.1, p. 45-55, jan./abr. 2009. Disponível em: <http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/1782/2687&gt;.