Livros: morte ou transmigração para a virtualidade?

Eu, livro – uma nota escrita por Juan Carlos Kreimer, publicada no Jornal Argentino “Página 12” em 20 de Julho de 2014 nos faz pensar sobre os paradigmas emergentes no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação no que diz respeito as dimensões físicas, materiais, cognitivas e sociais as quais temos enfrentado na sociedade da informação e do conhecimento. Propício para discussão a partir de nosso ponto de vista como cidadãos, bibliotecários, bibliófilos ou profissionais da informação.

Percebemos a narração de uma passagem traumática e dramática do material tangível ao intangível onde se instalam processos de nostalgia de  uma era pós-moderna marcadas por  “impossibilidades certas de capturar os instantes”. O narrador questiona sobre as eventualidades da apropriação do corpo já imaterial  propriedade imaterial do livro e que tipo de práticas leitoras serão estabelecidos em torno dele. Finalmente, o livro como sujeito,  observa que as novas propriedades da transmigração e indica a sua sobrevivência com base na continuidade da narrativa em função do espírito humano. O que importa é a durabilidade da alma do livro.

Na verdade, o motivo desse post é para refletir o quanto precisamos cultivar e conscientizarmos sobre a constante e móvel migração dos suportes que se convertem a cada dia mais efêmero.

Abaixo transcrevo a nota publicada de forma literal ao português. Trata-se de uma tradução não autorizada.

Eu, livro.

Mortalmente ferido, espécie ameaçada de extinção, objeto com tendência ao desaparecimento. De coleção, na melhor das hipóteses. Dizem sobre mim. O que restará desta massa muscular de papel e veias negras. Eu não sobreviverei ao pouso digital e em breve, talvez antes que eu mesmo possa dizer adeus, eu deixarei de vir como vinha. Em forma de exemplar.

Sem minhas páginas, quilômetros texto já se deslizam sobre outras superfícies. A variedade de suportes transcedem os computadores, tablets, agendas eletrônicas, ipads, smartphones … Basta convocar, ter um cartão de crédito habilitado ou ser hábil com os dedos, e de qualquer lugar no mundo onde você está, imediatamente você pode me baixar e estarei diante de seus olhos, como uma outra aplicação do dispositivo que tenhas à mão.

Minhas tiragens são reduzidas e os leitores que me ignoram como objeto físico se multiplicam. Prontos com um número esmagador de títulos brotam através dessa caixinha mais plana que eu, apenas umas gramas mais pesadas.O e-reader (eu pronuncio e em meu  novo nome universalizado já ouço de quem é a voz mestre nesta mutação).

Imaterial, intangível, volátil, sem a arte da capa para que ao menos possam me identificar. Zero espaços de biblioteca, zero caixas nas mudanças. Mero arquivo, mera quantidade de bytes. Você termina um e num instante pode seguir com outro. Embora imprimam milhões de mim em todas os idiomas, a tendência é que isso se multiplique. Hoje, depois de amanhã eu não sei.

A nostalgia precoce sentida por aqueles que se criaram comigo e me acariciaram por anos, me levaram para passear embaixo de suas axilas, me roubaram, me empilharam em cima de suas mesas de cabeceira (eu antecipava seu sono), me levavam de férias, me conservaram como bem próprio.Pessoas que me emprestaram e pessoas que me devolveram. Aos que preenchi um vazio entre uma atividade e outra. Aqueles que não podem viver sem mim e até mesmo o meu cheiro lhes diz algo.

E se resistirem à ideia de que um dia não muito longe deixarão de me encontrar nas prateleiras e deverão apenas mover o cursor para o carrinho a direita da tela. Se o aparato que me abriga dá um arrepio neles que prefeririam não sentir, e nem comento o que está acontecendo a todos aqueles que compõem a cadeia de produção / circulação montada em torno de mim. A industria editorial. Sem saber para onde, correm  aterrorizados. Rogam para que esse dia se atrase o máximo possível. O tornado numérico, assim o chamam na comunidade europeia, onde o negócio editorial é parte significativa das economias dos seus países e não podem evitar que as curvas das vendas se inclinem frente a disrupção causada pela minha nova embalagem.

Disrupção e inovações disruptivas. Familiarize-se com esses significantes. Eles são usados como sinônimos de colocarem-se em nichos de mercado e dominá-los sem deixar espaço para a menor capacidade de reação. Mais atrasam as vítimas de admitir a sua presença, maior a carga. Como aconteceu com a música gravada, fotografia, filmes, passagem aérea, anúncios dos classificados (seguem os itens), a disrupção eletrônica está vindo me buscar.

Qual o papel que irei desempenhar na sociedade global? O que venderão os editores? Recomendações? Quem fará a encadernação dos impressos? Qual será o impacto dessas pessoas que decidem os títulos publicados e que, como previsto por Borges, nunca verão a alta honra de tipografia? De onde sairá as margens de lucro para pagar os salários? Diversos autores poderão publicar seu trabalho, sem intermediários nas listas de títulos disponíveis: agora o risco de investimento é mínimo para o distribuidor, só passar a Word ou um pdf a um adobe acrobat e-reader ou a um epub. Quase nem precisa de um projeto de design para  fazer o upload numa plataforma que possa vendê-lo. O selo editorial deixará de ser o sobrenome que garante algum tipo de critério na seleção. Em que base será criado meu preço de capa?

Desde o banheiro agora você pode me assinar: me folheia e me escolha, leia tudo o que quiser por apenas 89,90 por mês …

A página é idêntico ao papel, você pode dimensionar o tamanho de minhas letras a seus dioptrias, você não precisa molhar o dedo para virar a página, a rugosidade do material da tela simula a celulose. Enquanto me lês podes saber o que os críticos escreveram sobre mim e outros que já me leram, fazer marquinhas sem um lápis. Eu não faço doer os braços quando me seguras no ar,  permito que me leias sem que acenda a sua luz de cabeceira e acordar seu marido … Isso de que produzo câncer, é papo causado por medo dos tradicionalistas.

O que está por trás dessas mudanças ortopédicas no negócio de publicação, na nossa relação eu-tu? Um hábito de não apenas ler, mas para viver: sem nós também, você está substituindo tem (e eventualmente acumulados) pelo acesso (neste caso leitura, que é a nossa relação sexual). Se desapegando do veículo e fazendo a mesma viagem, mais leve. O que conta agora é o uso, não o material de que é feito.

Sim, a sensação que coias como eu dão posses  (defesa conservadora) tende a deslocar-se à capacidade chegar a informação que você quiser, quando quiser. Quanto mais jovem for reclaro, nem eu levantar. Eles nasceram com esse paradigma e viver mais tempo construída através de que, em. Eles são programados para não resistir a qualquer transformação. Mais que isso, as esperam como parte de sua estabilidade emocional, de seu não  aborrecimento. Talvez mais do que ler, só procurem saber.

Incondicionais, não chorem por mim, nem por vocês. Chamamos migração ao terremoto. Assim como haverá sempre uma corporação disposta a ficar com os beneficiados de intermediário, , sempre haverá muitos – de fato cada vez mais, eles que queiram se tornar personagens de suas epifanias, especialmente nesse vírus que é o escritor. Sempre haverá impulsos que conduzem a narrar. Sempre sofrimentos, fragilidade, necessidades, enganos, incompletudes … e sempre filas de preto sobre branco hospedarão a singularidade aparente. Sempre haverá editores bonsai.

Eu sobreviverei a gamificação (joguinhos incorporados) da leitura, aos mega buscadores, a qualquer formato que você me apliquem. Eu  os seguirei companhando  acompanhar durante essas horas em que não podem se desapegar de minhas histórias, o que irá ou deixará de fazer tal personagem. Ou onde vai o entrelaçamento de determinada ideia. Nos momentos em que precisam ir para uma outra realidade, que não podem dormir, ou me engolem como uma medicamento. Continuarei pondo frente seus olhos todas essas histórias que sem a intenção falam de você. Vou fazer uma ponte entre o imaginário daquela mente solitária que um dia se deixou cair sobre as teclas e esse seu espaço, caçador solitário, dialogando, recria e as torna próprias.

Eu não importo.

Fonte original disponível em: http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-9884-2014-07-20.html
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